IVAN OU A DÚVIDA



Em 2015, a encenadora Sónia Barbosa iniciou uma pesquisa de criação teatral, com base na obra Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski. Depois de duas residências e duas apresentações informais do trabalho já desenvolvido, Sónia Barbosa partilha mais um momento que representa o culminar de toda a pesquisa.
Partindo da ideia de que todo o homem é senhor de si mesmo, fruto das suas escolhas e consciência, Ivan Karamázov coloca-se acima da ideia de bem e de mal. Mas desta sua perceção nasce a semente do crime mais hediondo de todos: o parricídio.
A primeira coisa com que nos confrontamos diante d’Os irmãos Karamázov de Fiódor Dostoiévski é a sua dimensão. Em todos os sentidos. É realmente grandioso. Se quiséssemos fazer um paralelo arquitectónico, estaríamos diante duma Muralha da China. E, ao percorrermos o romance, a vontade de nos determos longamente a apreciar um particular, persiste.
Ivan Karamázov aparece-nos como uma das chaves de leitura da obra: uma perspectiva. Naturalmente é uma perspectiva que exclui outras – uma forma de “reduzir o tema”, como ele próprio diz ao irmão Aliocha, enquanto lhe confessa a sua concepção do mundo. A redução é essencial para nós que procuramos a equação perfeita para equilibrar o conteúdo literário, o nosso ponto de vista subjectivo e um código teatral eficaz para fazer chegar estas duas coisas ao espectador.
Escolhemos, portanto, Ivan, o segundo filho, para iniciarmos a construção do nosso edifício teatral karamazoviano, deixando de fora muita outra matéria para futuras empreitadas.
Ivan, o enigma. Ivan, o homem que desafia Deus. Aquele que recusa aceitar o dogma sem lhe compreender os fundamentos. Aquele que representa a eterna questão de Dostoiévski: Deus existe? Mas mais do que a questão religiosa e teológica, trata-se aqui da questão da consciência, da liberdade de escolha, desse “terrível dom” que é o livre arbítrio, com que a Humanidade se tem atormentado durante séculos e séculos.
“Se Deus não existe, tudo é permitido ao homem” – diz Ivan; só a sua capacidade de escolha determinará a diferença entre o que está certo e o que está errado. Onde desenhamos essa linha que diz: “daqui não passo”?
É uma pergunta válida, hoje, em muitos sentidos: ideologicamente, eticamente, politicamente, economicamente, culturalmente… E se estreitarmos ainda mais a zona de focagem para o campo teatral: que limites são esses que fazem hoje do teatro aquilo que ele é, pode ser ou quer ser? Onde pomos o “daqui não passo” no teatro?
Foi esta a chave que Ivan nos passou para as mãos, e atrás da porta que ela nos abriu temos encontrado perguntas e mais perguntas. Respostas, muito poucas.



Em verdade, em verdade vos digo:
se um grão de trigo, ao cair na terra, não morrer, fica infecundo;
mas se morrer, produz muito fruto.

(Evangelho de São João, XII, 24)


FIÓDOR DOSTOIÉVSKI & OS IRMÃOS KARAMÁZOV
Fiódor Dostoiévski nasceu em Moscovo em Outubro de 1821, ele próprio foi um segundo filho, como Ivan Karamázov. Eventos fatídicos marcaram a sua juventude: a morte da mãe em 1837 com tuberculose, e a morte do pai dois anos mais tarde, em circunstâncias pouco claras, que indicam a possibilidade de ter sido assassinado, tal como Fiódor Karamázov, o pai d’Os irmãos Karamázov.
Dostoievski frequentou a Academia Militar de Engenharia e exerceu a vida militar, tal como Dmitri Karamázov, mas durante os estudos interessou-se mais  pelo programa de literatura: estudou a obra de Shakespeare, Pascal, Victor Hugo, Hoffmann, Balzac, Goethe e Schiller.
Em 1849, foi preso e condenado à morte por participar no Círculo Petrashevski, um grupo intelectual revolucionário dedicado principalmente à discussão das condições de vida na Rússia. Na verdade, Dostoiévski não ia às reuniões do Círculo há mais de três meses quando foi preso, mas participava realmente duma outra organização bem mais radical liderada por Nikolai Spechniev (homem que viria a inspirar Nikolai Stavróguin, o protagonista de Os Demónios). Ironicamente, essa organização, não foi descoberta pelas autoridades e a sua existência só veio a público em 1922. A pena de morte foi substituída, à última hora, por cinco anos de trabalhos forçados numa prisão siberiana. A experiência de estar diante do pelotão de fuzilamento, marca profundamente o seu percurso pessoal e artístico. Foi agrilhoado e a caminho da Sibéria que Dostoiévski recebeu um exemplar do Novo Testamento, que não mais largou. Enquanto a figura de Cristo assumiu para ele o ideal máximo da procura interior, tal como no personagem de Aliocha (Aleksei Karamázov), a sua relação com a religião foi sempre atormentada pela rejeição e pela dúvida, tal como no personagem de Ivan:
“Sou filho da descrença e da dúvida, até ao presente e mesmo até à sepultura. Que terrível sofrimento me causou, e me causa ainda, a sede de crer, tanto mais forte na minha alma quanto maior é o número de argumentos contrários que em mim existe! Nada há de mais belo, de mais profundo, de mais perfeito do que Cristo.”(O Diário de um Escritor, F. Dostoiévski)
Na prisão sofre a sua primeira crise de epilepsia, condição que também atinge um outro personagem d’Os irmãos Karamázov – Smerdiakov.
Foi vítima do vício do jogo, o que lhe causou muitos desaires financeiros na sua vida privada: abordou esta temática em O Jogador, mas também nos Karamázov, Dmitri apresenta características deste género.
Em 1880 termina Os irmãos Karamázov, o seu último romance. Este, na intenção de Dostoiévski, serviria de preâmbulo para uma obra ainda mais grandiosa planeada pelo autor desde há muito, A vida de um Grande Pecador, que contaria o percurso de vida da personagem de Aleksei Karamázov. Morreu antes de a poder realizar.
 Morreu a em São Petersburgo a 9 de Fevereiro de 1881, de uma hemorragia pulmonar associada com enfisema e ataque epiléptico. Estima-se que o funeral foi assistido por cerca de sessenta mil pessoas. Na sua lápide podem ler-se os seguintes versos de São João, que também servem como subtítulo d’Os Irmãos Karamazov:

Equipa artística

Produção
Ritual de Domingo Associação Artística
Teatro Viriato

Direção do projecto
Adaptação cénica
Encenação
Sónia Barbosa

Desenho de luz
Direção técnica
Produção
Cristóvão Cunha

Espaço cénico
Figurinos
Ana Limpinho

Consultoria musical
Ana Bento

Imagem e comunicação
Nuno Rodrigues

Fotografia e Vídeo
Luís Belo

Assistência de produção
Rúben Marques

Intérpretes
Nuno Nunes
João Miguel Mota
João Jacinto

(Ricardo Vaz Trindade)


Parcerias

- Programa de Apoio à Cultura Viseu Terceiro / Câmara Municipal de Viseu
- Teatro Viriato



Apoios

- Fundação Lapa do Lobo
- ACERT Novo Ciclo
- Associação NACO
- ESEV
- CPR / Lugar Presente
- Junta de Freguesia de Viseu
- AFTA
Pesquisa Teatral