DMITRI OU O PECADO
Depois de concluída a primeira fase do projecto à volta da figura de Ivan Karamázov, com a estreia do espectáculo Ivan ou a Dúvida em fevereiro de 2017 no Teatro Viriato (espectáculo ainda em digressão), trabalhamos agora na segunda fase cujo principal foco de estudo é a figura de Dmitri Karamázov.
Dmitri, o primeiro filho: passional, sensual, irascível, violento. Aquele que abertamente anuncia o seu desejo de matar o pai - será ele o parricida? Dmitri representa a ideia de pecado, porque não consegue (ou não quer) resistir aos impulsos violentos e destruidores que constantemente o assaltam.
Depois da primeira fase em que nos debatemos com a Dúvida de Ivan, e com a impossibilidade de escape perante esse radicalismo analítico; afrontaremos agora a via do delírio e do desejo. E também aqui nos vemos diante de um abismo: o do desejo descontrolado, o dos impulsos mais selvagens, o da entrega ao lado mais irracional e sensual da natureza humana. Debruçamo-nos sobre a viagem de Dmitri ao longo do romance, em particular os dias anteriores à noite do crime (o assassinato do pai), a noite do próprio crime e as consequências dessa noite. Dostoiévski conduz-nos lado a lado com Dmitri através dessas horas delirantes, exacerbadas, loucas.
E se em Ivan ou a Dúvida trabalhámos sobre a angústia do combate solitário e mortal entre um homem e a sua própria consciência, em Dmitri ou o Pecado serão o frenesim, o delírio, o arrebatamento e a passionalidade os motes que guiarão este processo. Uma outra faceta na obra de Dostoiévski, profundamente humana, retratada com a ampliação microscópica que lhe é habitual.
“Aos insectos, sensualidade!
Eu sou esse mesmo insecto, meu irmão, e é em especial de mim que se trata. E todos nós, os Karamázov, somos assim, e também em ti, anjo, esse insecto vive e engendra tempestades no teu sangue. É uma tempestade, porque a sensualidade é uma tempestade maior do que as tempestades! A beleza é uma coisa assustadora e terrível!”
Dmitri Karamázov, em “Os irmãos Karamázov” de F. Dostoiévski
Sobre o espectáculo
Dmitri ou o Pecado foi estreado no dia 14 de junho de 2019 no Teatro Viriato, em Viseu.
O espectáculo surge de um processo criativo colectivo, entre encenadora e intérpretes (com intervenção dos criativos das áreas da música, cenografia e luz), onde a própria construção da dramaturgia é resultado do trabalho com os actores.
São usados elementos como o conteúdo da obra literária, a improvisação e o cruzamento com outros materiais e conceitos.
A dramaturgia que surge deste processo criativo chega-nos cheia de imagens, cenas sem texto, jogos corporais e musicais, planos e situações em sobreposição. Está lá o texto de Dostoiévski (e é todo ele de Dostoiévski!), mas posto em cena através duma forma muito subjectiva de olhar.
Queremos interrogar-nos sobre o desejo, a passionalidade, a sensualidade, a perda de controlo, a violência, a crueldade, a animalidade. Todos podemos ser Dmitri. Dmitri contagia-nos.
“Caiu a tempestade, atingiu-me a peste e estou infectado até agora.”
Esta infecção que se espalha, leva-nos para um mundo bem menos racional do que aquele que Ivan nos tinha proposto. E por isso, neste espectáculo, tudo é invadido pela ideia do subconsciente – daquilo que não se compreende completamente, daquilo que nos surge muitas vezes em sonhos através de imagens que não conseguimos sequer explicar. A sobreposição de significados, as diversas possibilidades de leitura, a ideia de planos que se sobrepõem em profundidade são alguns dos elementos que nos permitiram transformar a ideia de subconsciente em matéria teatral.
É realmente um mundo mais frenético, mais grotesco, mais selvagem, mais estridente, mais inexplicável, o que nos surge do “espectro dmtriano”. Permitiu-nos trabalhar numa zona híbrida, misturando diferentes códigos teatrais, e arriscando uma dilatação de ambientes bem mais ousada do que aquela que percorremos na criação de “Ivan ou a Dúvida”. Mas, também desta vez, a natureza do espectáculo nasce da tentativa de mergulho e pensamento profundos sobre obra de Dostoiévski. Uma fonte de inspiração que se tem mostrado inesgotável. Até agora.
— Equipa artística
Produção
Ritual de Domingo
Associação Artística
Co-produção
Teatro Viriato
Encenação e dramaturgia
Sónia Barbosa
Interpretação
Guilherme Gomes
Hugo Sovelas
João Miguel Mota
Sónia Teixeira
Susana C. Gaspar
Espaço cénico e figurinos
Ana Limpinho
Desenho de luz
Cristóvão Cunha
Música
Ana Bento
Comunicação e design gráfico
Nuno Rodrigues
Fotografias e vídeos
Luís Belo
Consultoria dramatúrgica
Anabela Mendes
Apoios
Fundação GDA
Fundação Lapa do Lobo
Município de Viseu
Associação Naco
Acert
Contraponto
Lugar Presente
Companhia Paulo Ribeiro
Escola Superior Educação Viseu
Freguesia de Viseu









