ALEXEI OU A FÉ

(2021)



Aleksei e a nossa perspectiva sobre ele

Aliocha (Aleksei) é o protagonista de “Os Irmãos Karamázov” – é assim que Dostoiévski o apresenta no início do romance; representa o amor que tudo perdoa, associado à figura de Nossa Senhora na ortodoxia russa. O seu carácter e comportamento não são explicados de modo psicológico, dando a entender que há alguma inspiração nele talvez de tipo sobrenatural, como a que caracteriza os homens santos: “a pureza moral da sua natureza e o amor que inspira em todos, (…) são atributos tradicionais dos santos”. Esta religiosidade natural de Aliocha, esta fé incondicional, não o afasta porém das questões políticas e sociais do seu tempo.
Identificar Aliocha como o protagonista da história pode parecer estranho, uma vez que os principais acontecimentos da obra “Os Irmãos Karamázov” (ou pelo menos os mais memoráveis, como as cenas de ciúmes e as querelas entre pai e filho, a Lenda do Grande Inquisidor, o assassinato do pai e o julgamento, por exemplo) são protagonizados por outras personagens. Mas a verdade é que Aliocha está sempre presente, como uma testemunha silenciosa, um mediador entre todas as partes, um confessor, alguém que permite que as grandes revelações do romance sejam possíveis. Todos os momentos-chave em que as personagens se revelam no mais profundo do seu íntimo, acontecem na presença de Aliocha.
A questão da fé torna-se o núcleo duro impossível de contornar. A fé, como a entendemos em Dostoiévski e também na nossa visão, não se pode reduzir apenas ao tema da religião.

E mesmo que nos fique no coração apenas uma boa lembrança, até essa pode servir um dia para a nossa salvação.

— Aliocha

Mais do que afirmar a fé, interessa-nos interrogar-nos de onde vem essa fé e porque temos necessidade dela. Mais do que dar uma solução para a angústia dos nossos tempos, interessa-nos interrogarmo-nos sobre a natureza dessa angústia (que é diferente da angústia dos tempos de Dostoiévski, embora com muitos traços comuns, principalmente os mais profundos que correspondem à natureza humana na sua essência). Mais do que propormos uma ideia de fé, interessa-nos perguntar se temos algum tipo de fé e se a temos: de onde vem ela, que fé é essa, de que é feita?
Olhando para Aliocha, quais são os elementos (para além da religião) que nos fazem equacionar a presença de uma fé – o acreditar incondicionalmente em algo como motor de acção no mundo? A resposta, parece-nos, está nas crianças. Para nós são elas que podem ainda hoje personificar essa possibilidade de fé, de acreditar em algo, de contacto com algo de misterioso e ao mesmo tempo criativo.
Outro aspecto importante que identificamos na perspectiva de Aliocha é a sua relação com a memória. A ideia de que há memórias poderosas capazes de guiar e até mesmo salvar uma pessoa nos momentos mais difíceis da sua vida é apresentada diversas vezes ao longo do romance, sempre em relação com esta personagem.
A importância desta ideia é sublinhada de modo indiscutível quando Dostoiévski decide terminar o romance com o discurso de Aliocha aos doze rapazes, amigos do falecido Iliúcha, feito junto à sua pedra preferida, em que ele lhes pede que se lembrem para sempre deste momento, em que amaram o amigo Iliúcha, choraram por ele, e se reuniram em seu nome, recordando o melhor do que os unia. Aliocha pede-lhes ainda que acreditem que esta memória será algo de precioso durante todas as suas vidas futuras, e que poderá, em momentos de desespero, de descrença, de revolta ou de cinismo, significar uma possibilidade de salvação.
“Saibam que não há nada mais sublime, nem mais forte, nem mais saudável, nem mais útil para a nossa vida no futuro, do que uma boa recordação, em especial da infância, da casa paterna. Falam-vos muito da vossa educação, mas uma bela memória, uma lembrança sagrada, guardada desde a infância, é talvez a melhor educação. Se uma pessoa juntar muitas dessas recordações, estará salva para toda a vida. E mesmo que nos fique no coração apenas uma boa lembrança, até essa pode servir um dia para a nossa salvação.”
Para além destes dois elementos, o ponto de vista das crianças e o simbolismo da memória, identificamos ainda outros dois, na perspectiva de Aleksei, que gostaríamos de explorar: a crise de fé de Aliocha e a figura de Zóssima, o sábio monge, mentor de Aliocha, cuja morte provoca esta mesma crise de fé.
A descrição da crise de fé de Aliocha ocupa todo o Livro Sétimo – Aliocha, um dos mais belos livros do romance, na nossa opinião. Aliocha está perto de ser arrastado pela revolta e pela descrença, e tem de fazer um grande percurso interior para voltar a ser içado para o plano da fé, e desta vez, de modo ainda mais convicto e profundo.
Há ainda a relação de Aliocha com a morte do Pai – evento-chave da obra e também da nossa visão sobre ela – que queremos desenvolver. Para cada um dos irmãos este evento tem uma leitura que ultrapassa a função narrativa de acontecimento-catástrofe, e se liga a algo mais simbólico, filosófico e psicológico. Para Ivan a morte/assassinato do pai representa o negativo/sombra da sua teoria idealista do homem-Deus. Para Dmitri, representa a luta entre o lado espiritualmente elevado e o lado animal e violento de cada homem. Para Aliocha a morte do Pai, que ele previu, intuiu, pressentiu em vários momentos, pode representar várias coisas: a crise que é necessário atravessar e superar para se ir mais longe no próprio caminho, a aceitação do mal para poder entender a necessidade activa do bem, reconhecer as trevas para reconhecer a luz, o confronto com o desespero mais profundo e desanimador, que pode significar a perdição definitiva da esperança e da fé ou o fortalecimento da mesma. É claro que a morte do pai para Aliocha não é apenas a morte de Fiódor Pávlovitch, mas também, e principalmente, a morte do ancião Zóssima.
A propósito é importante clarificar e sublinhar esta presença constante e significativa ao longo do romance na relação com Aliocha – a presença da Morte. Talvez por ver nele a melhor defesa do valor da vida, Dostoiévski continua a colocá-lo frente a frente com a morte, repetidamente (a morte da mãe aos três anos, a morte do pai espiritual, a morte do pai biológico, a morte do menino muito amado, Iliúcha…). A consciência da morte é aquilo que, em última análise, nos coloca o problema da fé – se não tivéssemos consciência de que vamos morrer, não teríamos necessidade da fé. Mas é o confronto com a morte que muitas vezes (quase sempre) põe à prova a força dessa fé. Porque a fé não nos tira a dor da perda, e às vezes acontece que a dor da perda ocupa demasiado espaço e não deixa lugar para a fé.


Equipa artística

Produção
Ritual de Domingo Associação Artística

Coprodução
Teatro Viriato

Encenação e dramaturgia
Sónia Barbosa

Interpretação
Hugo Inácio
Nuno Nunes
Patrick Murys
Rosinda Costa


Espaço cénico e figurinos
Ana Limpinho

Desenho de luz
Cristóvão Cunha

Música
Ana Bento

Curadoria Objecto Artístico Videográfico
São Castro e António M Cabrita

Comunicação e imagem do projecto
Nuno Rodrigues

Produção
Cristina Ferrão

Fotografias e vídeos
Luís Belo

Consultoria dramatúrgica
Anabela Mendes

Contabilidade
Luís Ferreira - Contraponto

Apoios Projecto Karamázov

Teatro Viriato
Coprodução em Ivan ou a Dúvida e Dmitri ou o Pecado

Fundação GDA
Apoio à Criação Teatro 2019, para a criação de Dmitri ou o Pecado
Fundação GDA – Apoio à Circulação 2018, para o 1º espectáculo do Projecto Karamázov, Ivan ou a Dúvida

Município de Viseu
Viseu Terceiro 2016, Programa de Apoio à Cultura, para Residência de Criação de Ivan ou a Dúvida no Teatro Viriato (Julho 2016)

Parceiros
Teatro Meridional, Teatro Municipal da Guarda, Fundação Lapa do Lobo, NACO, Festival Palco Para Dois ou Menos, Centro Cultural de Tábua, ACERT, Contraponto, Lugar Presente, Companhia Paulo Ribeiro, Escola Superior Educação Viseu, Escola Secundária de Canas de Senhorim, Escola Secundária de Nelas, Escola Secundária de Carregal do Sal, Freguesia de Viseu, AFTA
Pesquisa Teatral